O sucesso é um futuro perigoso

          Como gestor de carreiras artísticas e grande entusiasta de estratégias para catapultar uma persona artística ao estrelato, tenho que lidar constantemente com a dosagem de uma porção mágica. Uma equação que é, muito provavelmente, o maior desafio para quem se dedica a dar vida e brilho à um talento: Como fazê-lo voar sem tirar os pés do chão e se descolar da realidade? O estrelato pode ser muito perigoso para quem não sabe voar. É preciso domar a vaidade e o ego. Vale sempre a velha lógica da diferença entre veneno e remédio: é só uma questão da dose.

 

          Me identifico muito com Victor Frankenstein, aquele cientista louco dos primórdios da ficção científica que, apesar de bem-intencionado, acaba involuntariamente criando um monstro.

 

          Victor Frankenstein, personagem do livro de Mary Shelley, era um estudante de ciências naturais que, fascinado com o segredo em torno da geração da vida, dedicou seu tempo integralmente, sacrificando o contato com a família e a própria saúde, para criar um ser humano gigantesco. Após alguns anos mergulhado no projeto, ele obtém sucesso, porém, logo enoja-se com sua criação. Após consequências trágicas, passa a se sentir culpado por ter criado o monstro. O segredo e a culpa passam a lhe torturar.

 

          Eu, personagem da vida real, era um estudante de publicidade que, fascinado com o segredo em torno da geração de astros no show business, ... Bom, para resumir, basta completar esse parágrafo dando um copia-e-cola (o tal control c control v) do parágrafo acima.

 

          Uma mentira bem contada é uma verdade com os dias contados; Lobo em pele de cordeiro; A corda sempre arrebenta do lado mais fraco; enfim, uma sucessão de clichês óbvios poderia resumir as muitas histórias de artistas que se perderam nos próprios personagens que criaram. Mas os holofotes do palco raramente revelam a escuridão e a podridão dos bastidores.

 

          Há uma canção de Cazuza que diz “eu vejo o futuro repetir o passado (...) eu vejo um museu de grandes novidades”. É por aí, as histórias se repetem. O sucesso é um futuro perigosíssimo. Foi feito para dar merda. É muito raro não se deixar levar pelas tentações da fama, do poder, da vaidade e do dinheiro. E, assim, boa parte dos casamentos no show business costuma terminar em divórcios litigiosos.
 

          Recentemente, um imbróglio envolvendo artistas do meu escritório acabou tomando grandes proporções. Ocorreu que um artista, ao ser superado em números e visibilidade por outras artistas também lançadas por mim, entrou em um processo sem fim de atitudes equivocadas para enfraquecê-las e desmerecê-las. Não obteve sucesso na empreitada e acabou me escolhendo como alvo por eu ter ficado ao lado delas. Começou aí um lento e longo processo de retaliação da parte dele, que acabou por ruir por completo nossa relação profissional. Hoje, enxergo isso como uma espécie de livramento. Desconfio seriamente que fiquei do lado bom da força. Me encantei por essas artistas por enxergar ali exatamente o que eu não conseguia mais ver naquele outro artista: verdade.

 

          Entendi, então, que eu havia passado anos me cegando diante do brilho fosco de um artista extremamente vaidoso e egóico, mas que construiu, com a minha ajuda, confesso, um falacioso storytelling de desapego e simplicidade. Uma mentira bem contada que acabou se tornando uma verdade por um tempo, mas que não durou muito. Acabou mergulhando e se afogando em um poço de contradições e terminou por se encher de ressentimento, o tal veneno que se toma esperando que o outro morra. Deu no que deu.

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